O congestionamento em São Paulo voltou a bater recorde em 2026 e, mais uma vez, a chuva aparece como gatilho de um problema que vai muito além do clima. Este artigo analisa como episódios de precipitação intensa escancaram fragilidades estruturais da mobilidade urbana paulistana, avalia impactos econômicos e sociais do trânsito paralisado e propõe uma leitura crítica sobre o que precisa mudar para que a cidade deixe de reagir a crises previsíveis e passe a agir de forma estratégica.
Quando a chuva cai sobre São Paulo, o trânsito costuma parar. Não se trata de um fenômeno inesperado, mas de um padrão que se repete ano após ano. O recente recorde de congestionamento em São Paulo, registrado em um dia marcado por chuvas fortes, evidencia que o problema não está apenas no volume de água, mas na incapacidade do sistema viário de absorver choques previsíveis. A cidade reage como se fosse surpreendida por algo que faz parte de sua própria dinâmica climática.
O excesso de veículos nas ruas, combinado com alagamentos recorrentes, semáforos desligados e redução da velocidade média, cria um efeito dominó que paralisa regiões inteiras. A chuva, nesse contexto, funciona como um teste de estresse para a infraestrutura urbana. E São Paulo tem falhado nesse teste. O congestionamento extremo não é uma exceção, mas o sintoma mais visível de um modelo de mobilidade que opera no limite mesmo em dias considerados normais.
Do ponto de vista econômico, o impacto é direto e mensurável. Horas perdidas no trânsito significam queda de produtividade, atrasos em entregas, aumento de custos logísticos e prejuízos para o comércio e os serviços. Em uma metrópole que depende da circulação constante de pessoas e mercadorias, o congestionamento em São Paulo deixa de ser apenas um incômodo cotidiano e passa a ser um entrave ao desenvolvimento. A chuva apenas acelera e amplia perdas que já existem.
Há também um custo social frequentemente subestimado. Trabalhadores que passam mais tempo presos em ônibus ou carros chegam mais cansados, menos produtivos e com menor qualidade de vida. O transporte público, que deveria ser alternativa eficiente em dias críticos, muitas vezes também sofre com vias alagadas e falta de prioridade operacional. Assim, a desigualdade se aprofunda, já que quem depende do transporte coletivo sente os efeitos do colapso de forma mais intensa.
É preciso reconhecer que São Paulo ainda trata a mobilidade urbana de forma reativa. Medidas emergenciais são adotadas após os recordes de congestionamento, mas raramente há mudanças estruturais que enfrentem a raiz do problema. Investimentos em drenagem, integração entre modais, corredores de ônibus realmente eficientes e gestão inteligente do tráfego seguem avançando em ritmo inferior ao crescimento da demanda.
Outro ponto crítico é a dependência excessiva do automóvel. Em dias de chuva, muitos motoristas deixam alternativas como bicicleta ou deslocamentos a pé e migram para o carro, ampliando a saturação das vias. Sem políticas consistentes de desestímulo ao uso do veículo individual e sem um transporte público confiável em qualquer condição climática, o congestionamento em São Paulo tende a atingir novos recordes sempre que o céu fechar.
A discussão não pode se limitar à intensidade das chuvas, até porque eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes. O foco precisa estar na adaptação da cidade a essa realidade. Planejamento urbano, ocupação do solo e preservação de áreas de drenagem são temas diretamente ligados ao trânsito, embora muitas vezes tratados como assuntos separados. Quando rios são canalizados e áreas permeáveis desaparecem, a água ocupa as ruas e o tráfego entra em colapso.
O recorde recente de congestionamento em São Paulo deve ser encarado como um alerta, não como uma estatística passageira. A cidade precisa abandonar a lógica de apagar incêndios e assumir uma estratégia de longo prazo para mobilidade e resiliência urbana. Chuva não pode continuar sendo sinônimo de caos. Enquanto isso não mudar, cada novo temporal será apenas mais um capítulo previsível de um problema antigo, caro e profundamente urbano.
Autor: Carye Ulaan

